Heliópolis: alagamentos do núcleo Lagoa ficam fora de dados de SP
Levantamento do Observatório De Olho na Quebrada mapeou pontos onde a água acumula a cada chuva na favela; a falta de registro oficial dificulta planejar drenagem
Quem mora em Heliópolis sabe de cor onde a água empoça toda vez que chove forte. O que um levantamento divulgado pela UNAS Heliópolis e Região mostra agora é que parte desses pontos não existe no papel: no núcleo Lagoa, os alagamentos não aparecem nos dados oficiais da cidade de São Paulo.
O mapeamento é do Observatório De Olho na Quebrada e identificou, dentro da favela, locais em que alagamentos e acúmulo de água fazem parte da rotina nos períodos de chuva. Segundo o material divulgado pela UNAS, esses episódios se repetem sem que o problema tenha solução por parte do poder público.
Por que a ausência de registro importa
A falta de informação não é só um detalhe burocrático. Quando um ponto de alagamento não entra nas bases oficiais, ele tende a ficar de fora do planejamento: é mais difícil dimensionar obras de drenagem, priorizar ruas e identificar quais áreas correm mais risco. O efeito prático recai sobre o morador do núcleo Lagoa e dos becos vizinhos, que convivem com a água dentro de casa e no caminho até o trabalho ou a escola.
A questão ganha peso porque as chuvas têm ficado mais intensas. O levantamento citado pela UNAS associa o cenário aos efeitos das mudanças climáticas sobre o território e defende políticas de prevenção e adaptação, além da ampliação de áreas verdes na favela.
Calor e chuva, o mesmo problema
O mapeamento dos alagamentos se soma a outro dado sobre Heliópolis: pesquisa do CEFAVELA apontou que a favela chegou a registrar temperaturas cerca de 15°C acima das medidas em outros bairros de São Paulo no mesmo período, num contraste com regiões que têm praças, jardins e avenidas arborizadas, como o Morumbi.
"Nos dias mais quentes é muito sofrido. Dentro de casa é um forno por causa da telha e na rua não tem sombra, é muito asfalto e pouca árvore", relatou Caroline de Jesus, 34, moradora de Heliópolis, ao material divulgado pela UNAS.
Calor extremo e alagamento têm uma raiz comum no território: muita superfície impermeável, pouca área verde e um espaço construído que absorve calor e não absorve água. É esse conjunto que os dois estudos usam para sustentar a cobrança por políticas de adaptação climática voltadas às favelas.
O que acompanhar
Heliópolis fica na área da Subprefeitura do Ipiranga, que responde por serviços urbanos em conjunto com os órgãos da Prefeitura de São Paulo — a drenagem e a limpeza de bocas de lobo estão entre eles. Problemas de alagamento, bueiro entupido e acúmulo de água podem ser registrados pelo canal 156 da Prefeitura, o que também ajuda a gerar o registro formal que hoje falta em parte dos pontos mapeados na favela.
Informações divulgadas pela UNAS Heliópolis e Região, com base em estudos do CEFAVELA e do Observatório De Olho na Quebrada.